O que é a PEA?

Dr. Ricardo Pereira

A inflamação é uma resposta natural do organismo frente à estímulos nocivos e possui função protetora, se manifestada de maneira controlada. Mas, é extremamente prejudicial quando desregulada, tornando-se um fator chave na manifestação de diversas doenças. Assim, a inflamação precisa ser regulada e/ou interrompida quando não mais necessária. (2)

As N-aciletanolaminas (NAEs) demonstraram grande potencial no controle da dor e da inflamação. A mais estudada é a Palmitoiletanolamida (PEA), encontrada facilmente em diversas fontes alimentares vegetais e animais – da soja à cenoura e dos ovos à carne bovina (1, 2).

Você sabia?
A função protetora da PEA foi observada pela primeira vez em cães. (1, 4)


1. Como a PEA funciona?

A inflamação e a dor crônica é uma experiência desagradável, que pode persistir após a cura de um determinado problema de saúde. Em parte, devido o estímulo prolongado e/ou exacerbado de células não neuronais, como mastócitos e micróglias, que leva à liberação descontrolada de mediadores pró-inflamatórios e a alterações nas vias de sinalização da dor. (1)

Porém, é curioso que, estas mesmas células, também possuem funções protetoras e auxiliam na resolução da neuroinflamação e da dor, através de mediadores como os endocanabinoides e a PEA, liberados conforme à necessidade – por exemplo, em injúrias aos tecidos. (1) Nestas circunstâncias, ela é capaz de controlar negativamente os macrófagos, queratinócitos, células T, astrócitos e micróglia ativados, auxiliando no controle da inflamação. (2, 4)


Você sabia?

A PEA foi detectada em praticamente qualquer tecido e fluido corporal, inclusive no líquido sinovial das articulações de cães. Ela é produzida em resposta a danos teciduais, mantendo a resposta das células dentro dos limites fisiológicos, controlando assim a neuroinflamação e a dor crônica. (1, 2)


A nível molecular, a PEA controla células neuronais e não neuronais por meio de receptores: (a) canabinoides CB1 e CB2, (b) PPARα, (c) TRPV1 e (d) GPR55 e GPR119, sendo que seus receptores-alvo foram encontrados na pele de cães e gatos, ao longo do trato gastrointestinal, em diferentes áreas do cérebro, na medula espinhal e nos gânglios da raiz dorsal. (1, 2, 4)


Você sabia?

A PEA aumenta a afinidade dos receptores aos endocanabinoides AEA e 2- AG, o que sugere fortemente seu efeito sinérgico ao uso de canabinoides exógenos (óleo de cannabis), promovendo um efeito comitiva (“entourage”).


Está claro que a PEA se relaciona intimamente com o sistema endocanabinóide, atualmente considerado fundamental para a manutenção do equilíbrio do organismo. (2)


Você sabia?

Os mecanismos de múltiplos receptores da PEA são responsáveis pelo controle inato da dor e fornecem à PEA uma função analgésica natural. (1)


Em resumo, a PEA é produzida pelo próprio organismo sob demanda, ou seja, diante de uma injúria tecidual, com o objetivo de manter a resposta celular dentro dos limites fisiológicos, auxiliando no controle da dor e da inflamação. (1, 2, 4)


2. Em quais outras situações o PEA traz benefícios?

Alguns exemplos são:

2.1 Trato gastrointestinal: em níveis elevados, a PEA contribui para o fechamento da barreira intestinal e para a redução da inflamação intestinal. Um estudo preliminar em cães com diarreia crônica demonstrou que a suplementação com PEA reduziu a doença inflamatória canina. Além disso, ela auxilia na manutenção da homeostase da microbiota intestinal. (2, 4)

2.2 Trato urinário: estudos recentes demonstraram que a PEA auxilia a manter a homeostase, preservando a função renal, mesmo em condições adversas. (2)

2.3 Pele: a PEA auxilia na redução da inflamação, da coceira e das lesões cutâneas nas dermatites, melhorando a qualidade de vida dos cães estudados. (2, 3, 4)

2.4 Sistema musculoesquelético: estudos demonstraram melhora na gravidade da dor crônica, na claudicação e na flexibilidade/mobilidade, bem como nas manifestações comportamentais relacionadas à dor nos cães estudados. (1, 4)


3. Porque é importante suplementar a PEA?

Porque níveis baixos de PEA contribuem para o desenvolvimento e a manutenção de doenças. Portanto, sua suplementação traz benefícios à saúde. (1, 4) A suplementação alimentar com PEA possui uma grande vantagem em relação ao uso dos fármacos comuns, pois promove a biomodulação das respostas fisiológicas à diferentes estímulos e lesões. (2)

Além disso, o uso prolongando da PEA não está associada ao desenvolvimento de tolerância, ou seja, mesmo que seja suplementada por longos períodos, não haverá diminuição da sua efetividade no organismo. (2, 5)


Referências:

1. della Rocca, G.; Gamba, D. Chronic Pain in Dogs and Cats: Is There Place for Dietary Intervention with Micro-Palmitoylethanolamide? Animals 2021, 11, 952. https://doi.org/10.3390/ani11040952.

2. Gugliandolo, E.; Peritore, A.F.; Piras, C.; Cuzzocrea, S.; Crupi, R. Palmitoylethanolamide and Related ALIAmides: Prohomeostatic Lipid Compounds for Animal Health and Wellbeing. Vet. Sci. 2020, 7, 78. https://doi.org/10.3390/vetsci7020078.

3. Noli C, Della Valle MF, Miolo A, Medori C, Schievano C; Skinalia Clinical Research Group. Efficacy of ultra-micronized palmitoylethanolamide in canine atopic dermatitis: an open-label multi-centre study. Vet Dermatol. 2015 Dec;26(6):432-40, e101. doi: 10.1111/vde.12250. Epub 2015 Aug 18. PMID: 26283633.

4. Della Rocca G, Re G. Palmitoylethanolamide and Related ALIAmides for Small Animal Health: State of the Art. Biomolecules. 2022 Aug 26;12(9):1186. doi: 10.3390/biom12091186. PMID: 36139024; PMCID: PMC9496254.

5. Britti D, Crupi R, Impellizzeri D, Gugliandolo E, Fusco R, Schievano C, Morittu VM, Evangelista M, Di Paola R, Cuzzocrea S. A novel composite formulation of palmitoylethanolamide and quercetin decreases inflammation and relieves pain in inflammatory and osteoarthritic pain models. BMC Vet Res. 2017 Aug 2;13(1):229. doi: 10.1186/s12917-017-1151-z. PMID: 28768536; PMCID: PMC5541643.

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